Pesquisas em destaque
Resultados de algumas pesquisas do INCT-ECCE explicados de forma acessível
Resultados de algumas pesquisas do INCT-ECCE explicados de forma acessível
Imagem ilustrativa de uma criança com implante coclear participando de uma tarefa semelhante à utilizada no estudo, em que deveria nomear em voz alta figuras apresentadas na tela de um computador (Imagem criada por Vanessa Ayres Pereira com auxílio de inteligência artificial, ChatGPT/OpenAI).
Para apoiar a fonoaudiologia na reabilitação auditiva e oral de crianças com implante coclear, pesquisadores de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), vinculados ao INCT-ECCE, testaram um procedimento de ensino que levou duas crianças implantadas a dizer o nome de figuras novas sem nunca terem praticado sua pronúncia. O estudo foi publicado em 2026 na Revista Brasileira de Análise do Comportamento.
O implante coclear é um dispositivo oferecido para casos de deficiência auditiva severa ou profunda em que os aparelhos convencionais trazem pouco benefício. Em vez de amplificar os sons, o implante os converte em sinais elétricos que estimulam o nervo auditivo, permitindo escutar. Mas escutar não garante entender o que se ouve, nem falar. Uma criança pode repetir “bola” sem saber o que a palavra significa. Pode também buscar a bola quando alguém pede e, ao vê-la, não saber dizer seu nome. Parece contraditório, mas repetir, compreender e nomear são habilidades distintas, que nem sempre caminham juntas.
“Repetir e nomear envolvem exatamente a mesma vocalização, uma na presença do som e outra na presença do objeto. Mas a nomeação depende de um bom comportamento de ouvinte, que é a habilidade de ouvir a palavra e relacioná-la a um objeto, figura ou evento”, explica Ana Claudia Moreira Almeida Verdu, professora do Departamento de Psicologia da Unesp e autora do estudo.
Para promover essas habilidades, os participantes do estudo, dois meninos de 6 e 10 anos com habilidades verbais mínimas, fizeram duas sessões diárias de cerca de 50 minutos durante uma semana. Na primeira etapa, a pesquisadora dizia uma palavra e a criança apontava, entre várias figuras, a correspondente. Os dois aprenderam a relacionar palavras e figuras, mas, ao vê-las, não conseguiam dizer seus nomes.
Para ensiná-los a nomear, veio a instrução com múltiplos exemplares: com três novos pares de palavras e figuras, cada criança treinou três tarefas, ganhando um pequeno prêmio a cada acerto. Em uma tarefa, a criança repetia a palavra ouvida; na outra, apontava a figura ao ouvir “aponte para [nome]”; por fim, respondia à pergunta “o que é isso?” diante dela. Na última etapa, a pesquisadora repetiu o procedimento da primeira, mas com figuras novas. Ela apenas ensinou os meninos a apontarem para cada figura ao ouvir seu nome. Depois, ao ver as figuras, eles disseram os nomes corretamente em mais de 80% das tentativas, e com pronúncia mais precisa, sem nunca terem treinado dizê-los.
Por ter sido obtido com apenas duas crianças, em condições de laboratório muito controladas, o resultado ainda não permite recomendar o procedimento para uso clínico. Poucos participantes, porém, é o padrão da área, segundo uma revisão publicada pelo próprio grupo em 2018 na Revista Brasileira de Educação Especial. Um dos motivos é a dificuldade de encontrar voluntários com o perfil exigido. Outro é o próprio desenho desses estudos: em vez de comparar grandes grupos, eles costumam medir a eficácia do ensino individualmente, comparando o desempenho de cada participante antes, durante e depois da intervenção.
Mesmo sem aplicação clínica imediata, o estudo de 2026 pode orientar a reabilitação fonoaudiológica. “De um ponto de vista prático, o estudo mostra que observar certas características do procedimento nos ajuda a planejar caminhos de ensino que facilitem a aprendizagem e que produzam menos erros”, explica.
O estudo também ajuda a entender como aprendemos a ouvir com compreensão e falar com precisão, tema que o grupo de Verdu investiga há cerca de 20 anos. Segundo ela, o processo é semelhante para todas as pessoas, com ou sem deficiência auditiva. O que muda são as adaptações: é preciso levar em conta quais sentidos estão preservados, como audição, visão ou tato, e de que forma a pessoa consegue responder, seja pelo toque, por sinais ou pela fala.
Repetir não é nomear
Repetir, compreender e nomear são aprendidos em momentos diferentes, segundo a pesquisadora. No bebê que ouve, isso começa desde o nascimento. "Por volta de um ano, ele começa a ter controle fonoarticulatório, a usar a voz de forma intencional, ele reage aos sons balbuciando e, aos poucos, a fala vai tomando forma pela interação com outras pessoas", diz Verdu.
Nessa interação, primeiro surge a repetição. “Eu digo ‘controle’, você repete ‘controle’”, exemplifica Verdu. Repetir é pronunciar a palavra como ela foi ouvida, sem necessariamente compreendê-la.
Entender o que a palavra significa – o comportamento de ouvinte – também se aprende com os outros. “Quando o adulto diz ‘olha o controle’ apontando para o objeto, ele dirige a atenção da criança para esse objeto”, afirma a pesquisadora.
Nomear é quase o caminho inverso: diante do objeto, a criança diz seu nome, juntando o que aprendeu ao repetir e ao ouvir com compreensão. Isso acontece cotidianamente em cenas banais. “Depois de dizer ‘olha o controle’, o adulto pode falar assim: ‘Você quer pegar o controle? Então fala: con-tro-le’, e entrega quando ela repete”, explica.
Quando as três habilidades funcionam juntas, por volta dos dois anos, o vocabulário deslancha. “É quando ocorre a explosão das palavras. Há quem brinque dizendo: é quando a criança destampa a falar”, diz Verdu. Em crianças com deficiência auditiva, essa integração nem sempre acontece sozinha e pode precisar ser planejada passo a passo, como fez o estudo da Unesp.
Repetir, compreender e nomear são habilidades relacionadas, mas distintas. No início do estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Análise do Comportamento, as crianças apontavam a figura certa ao ouvir seu nome, mas não conseguiam dizê-lo ao ver a figura. Depois do treino que integrou as três habilidades, bastou aprender a relacionar palavras novas às figuras para que passassem a nomeá-las, sem terem treinado dizer essas palavras. (Infográfico elaborado por Vanessa Ayres Pereira com auxílio de inteligência artificial, ChatGPT/OpenAI)